A evasão de cérebros brasileiros 

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A evasão de cérebros brasileiros

 

As escolas brasileiras vão triando o melhor da nossa juventude. Os mais promissores vão para universidades públicas caras. Desses, peneiram-se alguns para bolsistas dos nossos mestrados também públicos. Desse pinguinho de sobreviventes, vão os melhores para o exterior fazer seus doutorados. A conta total é de pelo menos cem mil dólares por aluno.  

Mas subitamente, como os bilhões de dólares que evaporaram na crise cambial de dois anos atrás, alguma universidade ou empresa estrangeira faz uma oferta irresistível e lá se vai o nosso Ph.D. engordar o capital humano de outros países. É a evasão de cérebros repetidamente noticiada em nossa imprensa.  

Que dizer desse dreno no nosso parco capital humano? Que fazer diante de tal sangria? Antes de tudo, não tirar conclusões precipitadas. Para fazer um pouco de suspense, diria que precisamos perder ainda mais cérebros. 

 

Vamos por partes. As denúncias de “brain drain” no Brasil datam da década de sessenta. Eram sobretudo baseadas em analogia. Argentina, Colômbia e Índia tinham suas reservas de capital humano permanentemente sangradas. Pensou-se que o mesmo acontecia com o Brasil, sobretudo em vista da emigração de grandes nomes brasileiros para Europa e Chile, durante o regime militar. Quando foi feita uma contagem séria, no início dos anos setenta, descobriu-se que não somente a emigração era minúscula como o Brasil atraia cérebros de outros países (sobretudo Argentina e Uruguai).  

Quando fui diretor da CAPES, no início dos oitenta, não houve um só bolsista que não retornasse após sua formatura. Não somente as condições de trabalho eram atrativas aqui como os salários competitivos. Quando a situação econômica brasileira piorou e alguns começaram a cobiçar empregos no exterior, os grandes mercados fora estavam também secando.  

Por razões de falta de atrativos e oportunidades fora e uma certa permanência de razoáveis condições de trabalho no país, saíram muito poucos, considerando o tamanho do Brasil e a sua produção de cerca de cinco mil doutores por ano. O BID e Banco Mundial tem as duas maiores concentrações de brasileiros fora, com uma centena em cada um. Não há boas estatísticas, mas as somas totais parecem ser pífias.  

Vivas para a nossa vitória  sobre o “brain drain”? Novamente, a resposta é anti-intuitiva. Precisamos de mais e não menos evasão de cérebros. Sem um número razoável de brasileiros em universidades e em empresas de alta tecnologia, estamos isolados do mundo. Para exemplificar, não há uma só empresa relevante de informática no mundo que não tenha alguma coisa rolando no Vale do Silício. O sucesso recente da Índia só é possível por conta dos milhares de cérebros que perdeu para os Estados Unidos no último meio século, pois são eles as pontes para a engenharias de software local. Segundo Marcos Mares Guia, ter um laboratório operando em Miami e financiado pelo governo americano é essencial para oxigenar os grupos de pesquisa genética que ele lidera em Minas Gerais. Os funcionários brasileiros do BID e Banco Mundial – como era eu até faz muito pouco – são quem convidam brasileiros para seminários, para consultorias, para grupos de trabalho. O mesmo se dá com os poucos professores brasileiros em universidades no exterior. É com eles que se associam nossos cientistas locais, para pesquisas conjuntas e para acesso aos progressos vertiginosos da ciência moderna. Em certas áreas, artigo publicado é artigo velho. O que conta é a chamada literatura cinzenta, circulando eletronicamente antes das publicações oficiais dentre os círculos fechados da ciência de ponta. 

Portanto, lamentemos nossos baixos níveis de perda de cérebros. Precisamos mais gente no exterior, em posições ainda mais importantes. Mas há uma diferenciação relevante. Na área empresarial, tipicamente produtora de tecnologia, os brasileiros no exterior geram menos contatos diretos com seus pares no Brasil.  Mas por outro lado, detêm um tipo de experiência que é mais fragilmente dominada no Brasil: a geração de tecnologia. Portanto, ainda melhor do que perdê-los é recuperá-los.  

A saída de brasileiros para trabalhar em firmas americanas de alta tecnologia é uma das melhores formas de aprendermos mais sobre o  ingrato e delicado ciclo de produção e comercialização de tecnologia. Esperemos que saiam ainda mais brasileiros. E esperemos que voltem mais adiante para praticar aqui o que aprenderam lá fora. 

  

Claudio de Moura Castro

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