A nova bicicleta do exército suiço 

Uncategorized

A nova bicicleta do exército suiço 

  

Recentemente os suiços resolveram comprar um bom estoque de aviões F-18, notícia que não podia deixar de comparecer aos jornais. Afinal, não é barato nem fácil ter um dos melhores exércitos do mundo. Mas na primeira página dos diários também foi noticiado com destaque que o exército suiço finalmente escolheu uma nova bicicleta.  

Ora vejam, por que falar de uma reles bicicleta?  

A razão é simples. O caso encerra muitas lições para o nosso povinho tupiniquim. Por detrás da bicicleta suiça vão muitos séculos de civilização, permitindo ao suiço o melhor padrão de vida do globo. E são as pequenas coisas que denunciam as diferenças. 

Vejamos as características mecânicas da obra prima suiça. Verde-oliva, ao contrário de  sua antecessora que era preta. Com o crescimento de estatura dos soldados, a nova bicicleta é maior. Não obtante, pesa 21,5 quilos (meio a menos do que a anterior) e pode levar (além do ciclista) uma carga útil de 60 kg em seus porta-bagagens. O dianteiro leva as mochilas e o trazeiro munição e a metralhadora. Um avanço sobre o modelo anterior, é um “derrailleur” de sete marchas e o freio hidráulico. 

A guerra eletrônica e os foguetes não eliminaram os movimentos de tropas. Os suiços notaram que o avião a jato não transporta para os mesmos lugares que uma tradicional bicicleta. Daí os tres regimentos de ciclistas. Imaginem os uivos de protesto se o Exército Brasileiro decidisse transportar seus soldados por bicicleta. Não cabe aqui julgar se as bicicletas suiças ou brasileiras ganhariam  guerras imaginárias, mas simplesmente registrar que os soldados suiços não se sentem diminuidos em pedalar para a guerra.  

Foi feita uma concorrência para escolha da nova bicicleta que substituirá a anterior. A  firma Villiger, um dos concorrentes mais fortes, não pode participar, pois seu diretor virou Ministro de Estado (das Forças Armadas). Ganhou então a fábrica Condor que, contudo, teve que incorporar os melhores idéias apresentadas pelos participantes da concorrência. Aí estão os pequenos detalhes. Na hora de competir brigam todos (menos a empresa do Ministro que está impedida). Mas na hora de fabricar, o vencedor absorve as boas idéias dos concorrentes. 

As novas bicicletas começarão a ser fornecidas às tropas somente a partir 1993, terminando apenas em 1995 a entrega das 5500 bicicletas compradas. Os suiços não tem pressa. Tudo aqui é lento e bem feito. Com calma, a empresa produtora poderá melhor planificar sua engenharia de produção. 

Muito curioso é que a razão principal para mudar de bicicleta é o aumento no custo  das peças de reposição da velha. A fabricação do modelo velho hoje custaria US$ 2000. Já a nova pode ser produzida por US$ 1300. Não fora esta diferença de custo e continuariam todos com a velha, cujo modelo não foi mudado desde 1905. Ou seja, a bicicleta que o exército suiço tem hoje segue religiosamente as especificações técnicas aprovadas em 1905. Muitas são praticamente desta época. 

Note-se que são bicicletas caríssimas, em comparação ao que se compraria em qualquer loja. Mas os suiços acham que como são feitas para durar mais de meio século, compensa a diferença de custo. 

E o que acontecerá com as velhas? O exército é peremptório. Continuarão em serviço por mais vinte anos. A não ser, naturalmente, que sua venda para colecionadores justifique passar mais rapidamente para o novo modelo. 

Na democracia suiça, a escolha de uma nova bicicleta é assunto candente, merecendo a atenção e o desvelo de todos. E o grande critério de escolha não é o charme das novas tecnologias mas os vintens que se pode economizar. 

Claudio de Moura Castro

Share this

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Conteúdo Protegido..!