A ultima correspondência entre Marx e Engels
Da copiosa correspondência entre Marx e Engels, as duas cartas abaixo são inéditas.
Los Angeles, 18 de fevereiro 1990
Estimado Friedrich
É extraordinário! Morto por mais de cem anos, aqui estou em uma clínica na Califórnia, de novo em vida. Segundo me explicou o médico, por tratar-se de um processo novo e muito caro, minha ressureição foi patrocinada pela Coca-Cola.
Imagine, o grupo Time-Life oferece-me em adiantado um milhão de dólares para escrever um livro sobre minhas primeiras impressões e tenho uma oferta de entrevista no show do Johnny Carson. Quando nada, não vou mais precisar das suas mesadas. Não bastasse, a Albânia ofereceu-me um contrato de consultoria econômica. Cuba quer palpites para os discursos do Fidel. Por outro lado, a Alemanha do Leste negou-me visa de entrada e na Rumânia sou “persona non grata”. Como voce foi tambem ressucitado no mesmo período (patrocínio do MacDonald’s é isso mesmo?), peço-lhe ajuda para entender o que se está passando neste mundo estranho.
Leio os jornais e revistas, passo horas grudado nesta máquina infernal que é a tal de televisão. Mas custo a crer no que vejo e ouço. Quando escrevi O Capital, minhas idéias eram claras. Achava que as contradições crescentes do capitalismo maduro criariam as condições para uma revolução. Qual não é minha surpresa ao ver que a primeira ocorreu na Russia, um país mal saido do feudalismo. China, Cuba e Tanzânia estavam ainda mais longe do capitalismo maduro. É, não da para acertar sempre. Pior, os primeiros países capitalistas continuam fagueiros, longe de qualquer risco de revolução.
Veja bem Engels, todos temos nossas vaidades intelectuais. É isso que me está atrapalhando. O que vejo me deixa sucumbido. Errei tudo? Fracassou o marxismo? Venceu o capitalismo?
Minha primeira impressão foi medonha. Depois de dar uma voltinha no Mercedes Benz da enfermeira vi as fotos do tal carro Traubant da Alemanha Oriental. É feito de papelão. Não dá! E as filas na Russia! Bem, sempre tive as minhas dificuldades para entender o setor agrário. Mas não esperava um tal fracasso das fazendas coletivas ou que a festejada revolução agrícola chinesa fosse uma mera volta ao pequeno capitalismo rural.
Meus escritos sempre foram comentando o capitalismo. Sobre o socialismo disse muito pouco. Em certos momentos lamentei até não ter explicitado melhor o sistema que sucederia ao capitalismo. Ainda bem que não o fiz pois teria errado ainda mais estrondosamente. Quem poderia imaginar que sociedades livres da ganância capitalista não se tornassem mais justas e menos eivadas de privilégios?
Com todo o seu pragmatismo, Lênine que me perdoe. A ditadura do proletariado deixou de sê-la do proletariado e não deixou de ser ditadura após todo este tempo.
Quanto ao desemprego crônico do capitalismo, até que não errei demais. Está aí para quem quiser ver. Mas nos países ditos marxistas (tenho calafrios quando ouço que a Albânia é o mais puro exemplo de marxismo) o desemprego está dentro das fábricas na forma de baixíssima produtividade e uma enormidade de gente que não faz nada. Não sei qual é o pior.
Tudo que escrevi sobre a teoria do valor trabalho! As noites que passei em claro tentando responder às criticas de Böhn Bawerk no terceiro volume do Capital. Que decepção!
Estava produndamente convencido de que os lucros capitalistas cairiam cada vez mais, agravando as contradições e levando o sistema a bancarrota. O “public relations” da Coca-Cola mostrou-me o balanço do ano passado. Continua firme após todos estes anos (Por falar nisso, aquelas suas fábricas de tecidos em Manchester ainda existem?). O que se passa na cabeça dos que se dizem meus seguidores, os marxistas? Não querem ver a robustez e saude das empresas capitalistas? Eu quis ser um cientista e não um lider religioso.
Meu caro Engels. Confesso minha vergonha de aparecer diante de toda esta gente na televisão e ter que admitir que nada deu certo. Já estou achando que esta idéia de ressureição é um plano capitalista para humilhar-me. Por que não me deixaram sossegado em minha modesta sepultura em Londres? Que faço? Você conhece minha carreira e meu compromisso com a verdade.
Do seu amigo de sempre, Karl Marx
PS. E o cúmulo. Acabo de ler nos jornais que Taiwan ofereceu ajuda econômica à Polônia. K.M.
Palm Beach, 25 de fevereiro de 1990
Meu amigo Karl
Entendo suas angústias. Vivi exatamente o mesmo pesadelo. Não tive na outra encarnação a sua glória. Mas trabalhamos juntos e esposamos as mesmas idéias. Fomos parceiro, ora essa!
Mas de repente veio o estalo. Não é esta a maneira de ver as coisas. É bem verdade que os países ditos marxistas (com o perdão da palavra) estão dando com os burros n’água e os capitalistas mais prósperos do que nunca (você precisa ver o cheque que o MacDonalds me deu como pagamento de um “clip” na televisão). Que me perdoem as suas vaidades intelectuais mas erramos os dois ao prever as trajetórias dos paises capitalistas maduros. Não previmos que o socialismo aconteceria no segundo time do capitalismo e não previmos que a economia destes países encalharia em um pantanal de burocracia e incompetência.
Como profeta do fim do capitalismo foi um fracasso. Como economista, pode continuar sendo um dos grandes, se isto é algum consolo, já que os economistas são conhecidos pela sua incapacide de acertar nas previsões.
Mas Marx, e a sua consciência social? E o Marx político que escreveu comigo o Manifesto, denunciando a exploração do homem pelo homem? Meu velho amigo, é a vitoria. Que mais poderia querer um homem que levou o sistema capitalista a mudar?
Aí está o materialismo dialético em ação. O capitalismo é a tese, o socialismo tipo russo é a antitese. A sintese é o que veio depois. É um capitalismo totalmente diferente. Aquele que voce descreveu já não existe. Veja que erro elementar cometemos, supondo que, de repente, a dialética pararia no socialismo. O grande defensor do materialismo dialético revelou-se insuficientemente dialetico ao supor que o socialismo científico seria o fim da linha. A história foi mais dialética do que o defensor da dialética na história. A história não parou. Quem parou foram os regimes comunistas que se enrijeceram em torno de fórmulas obsoletas. Lamentavelmente, é preciso reconhecer, travaram o progresso em nome da fidelidade às suas idéias, erigindo uma imagem em pedra da sua obra e brandindo um fundamentalismo religioso indigno da riqueza de nuances dos seus livros.
Mas os países ditos capitalistas pouco tem em comum com aquela Inglaterra cuja situação miserável do proletariado eu descrevi no Conditions of the Working Class in Europe. Não mudaram por idealismo, verdade seja dita. Mudaram de puro medo do marxismo. A Revolução Russa jamais saiu da memória coletiva da Europa Ocidental. O medo do comunismo trouxe mais justiça social ao capitalismo do que o próprio comunismo nos países onde foi implantado.
A Inglaterra de nosso tempo considerava nocivo qualquer proteção aos pobres. A miséria que descrevemos, o trabalho infantil, as péssimas condições de vida da maioria da população, nada disso existe mais na Europa Ocidental. Não há dor de dente ou panarício que não seja coberta por uma securidade social bem razoável. A educação básica existe para todos, pelo menos nos primeiros dez anos. Os desempregados estão cobertos por um seguro que dá para viver.
Marx, se há alguem que seja responsável por todas estas mudanças eu não teria dúvidas em dizer que foi você. Aí está o capitalismo de hoje, pálida imagem do de outrora, menos cruel e compensando suas arestas remansecentes pela abundância do que tem a redistribuir.
Mas antes que voce me chame de ingênuo ou vira casaca, vamos logo deixando claro. Da mesma forma que o novo homem socialista não aconteceu nos países comunistas (onde foram por água abaixo os incentivos para o trabalho e as mesquinharias sobreviveram incólumes), o homem capitalista não é tampouco flor que se cheire. A safadeza aflora com frequência e nem tudo funciona.
Mas os últimos cem anos mostraram que a motivação para lutar por seus interesses privados é o mais forte e o mais facilmente administravel motor do comportamento humano. Mas, deixada livre, prevalece a lei do mais forte, levando aos abusos e desmandos que você tão pungentemente descreveu. Na dialética da história, os capitalistas assustados com o marxismo se veem obrigados a domar o capitalismo selvagem. Para não se arriscar a uma outra revolução russa, os paises protegeram os pobres e impediram os excessos da concorrência. O sistema às vezes falha e nem sempre protege os fracos da sanha dos menos escrupulosos. Mas no todo, os resultados ainda são melhores do que em qualquer outro sistema até hoje tentado em grande escala.
Mas meu caro Marx, eu se fosse você não gastaria cabeça nem com o capitalismo maduro (ou melhor diria, com o sistema que sucedeu ao capitalismo descrito no Capital) e nem com os impasses do socialismo burocrático. O grande problema à altura da sua cabeça é o destino dos paises pobres. Ponha a cabeça para funcionar.
Não chegam a ser realmente capitalistas. A energia do interesse próprio às vezes está presente, mas em geral canaliza-se para conseguir favores ou benesses do Estado. Ou então, para explorar o proletariado, como era no noso tempo. Mas como o proletariado explorado tem hoje um outro horizonte de expressão e protesto, pode até de virar a mesa. O problema é o que colocar no lugar? O comunismo não dá o bom exemplo. Cuba é muito artificial para ser repetido. Tanzânia e Nicaragua não animam muito. O risco maior parece ser de uma balburdia crônica e sem direção.
Mas não é para abrir estes assuntos que escrevo mas, repito, para dar-lhe um alento antes da sua entrevista na televisão. Profeta falido da queda do capitalismo você pode ser. Mas é tambem o maior responsável pelas trasformações que sofreu o capitalismo. Como prêmio de consolação, ser o maior reformista da história recente até que não e tão mau.
Do amigo de sempre, Friedrich
Claudio de Moura Castro

